Defesa Civil de Gaza diz que ataques israelenses mataram 12 desde o amanhecer, e Hamas fala em ‘violação do cessar-fogo’
A Defesa Civil da Faixa de Gaza afirmou que 12 pessoas foram mortas por ataques israelenses desde o amanhecer deste domingo, em meio à continuidade da violência no território palestino. Apesar de uma trégua mediada pelos Estados Unidos, que entrou em sua segunda fase no mês passado, Israel e o grupo terrorista Hamas seguem se acusando mutuamente de violar o acordo.
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Segundo a agência, que atua como força de resgate sob autoridade do Hamas, um ataque atingiu uma tenda que abrigava pessoas deslocadas em Jabalia, no norte de Gaza, e outro teve como alvo uma área na cidade de Khan Younis, no sul. A instituição informou que cinco pessoas morreram e várias ficaram feridas no ataque em Jabalia. Pelo menos uma pessoa morreu em bombardeios na Cidade de Gaza, e outra por disparos israelenses em Beit Lahia, no norte do enclave.
O Hospital Nasser, em Khan Younis, confirmou ter recebido os corpos de ao menos cinco homens mortos em um ataque na parte leste da cidade. Segundo a unidade, as vítimas, todas na faixa dos 20 anos, foram atingidas em uma área próxima à chamada Linha Amarela, que separa as zonas controladas por Israel do restante de Gaza. O Hospital al-Shifa informou ter recebido corpos após um ataque de drone na área de Falluja, no campo de refugiados de Jabalia.
— Israel não entende cessar-fogos nem tréguas — disse Osama Abu Askar, que perdeu o sobrinho no ataque em Jabalia, acrescentando que as vítimas foram atingidas enquanto dormiam. — Estamos vivendo sob uma trégua há meses, e mesmo assim eles continuam nos atacando. Israel opera com base nesse princípio. Diz uma coisa e faz outra.
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Imagens do necrotério analisadas pela Associated Press mostraram que ao menos dois dos homens mortos em Khan Younis usavam faixas na cabeça que indicavam filiação às Brigadas Qassam, o braço armado do Hamas. Rami Shaqra afirmou que seu filho estava entre os militantes que protegiam a área contra possíveis ataques das forças israelenses ou de grupos armados apoiados por Israel quando foram atingidos.
O Exército israelense não comentou os ataques deste domingo, mas disse que conduzia operações no norte de Gaza em resposta a violações do cessar-fogo nas proximidades da Linha Amarela. Segundo um oficial militar, as forças do Estado judeu identificaram militantes armados que tentavam se esconder sob escombros e outros que teriam cruzado a linha armados, “provavelmente após saírem de infraestrutura subterrânea”.
— Cruzar a Linha Amarela nas proximidades de tropas das Forças de Armadas de Israel, estando armado, é uma violação explícita do cessar-fogo e demonstra como o Hamas viola sistematicamente o acordo com a intenção de ferir as tropas — disse o oficial.
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O acordo de cessar-fogo mediado pelos EUA, que entrou em vigor em 10 de outubro, buscou interromper uma guerra de mais de dois anos. Embora os combates mais intensos tenham diminuído, a trégua tem sido marcada por disparos israelenses quase diários. Forças de Israel realizam repetidos ataques aéreos e frequentemente disparam contra palestinos próximos a zonas de controle militar, matando ao menos 601 em quatro meses. Israel diz que quatro de seus soldados morreram nesse período.
“O ataque a pessoas deslocadas em suas tendas é uma grave violação do acordo de cessar-fogo”, disse o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, em comunicado.
Hospitais na mira
Em meio às tensões, o Hospital Nasser condenou a decisão da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) de suspender a maioria de suas operações na unidade. Em comunicado, o MSF informou que interrompeu todas as atividades médicas não críticas devido a falhas de segurança que representariam “sérias” ameaças às equipes e aos pacientes, citando que houve um aumento de relatos de funcionários que viram homens armados no complexo desde o cessar-fogo.
“As equipes do Médicos Sem Fronteiras relataram um padrão de atos inaceitáveis, incluindo a presença de homens armados, intimidação, prisões arbitrárias de pacientes e uma situação recente de suspeita de movimentação de armas”, disse a organização em nota. A suspensão ocorreu em janeiro, mas só foi anunciada recentemente.
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Neste domingo, o Hospital Nasser, um dos poucos ainda em funcionamento no território, disse que o aumento da presença de homens armados se deve à atuação de uma polícia civil destinada a proteger pacientes e funcionários, acrescentando que as alegações são “factualmente incorretas, irresponsáveis e representam um sério risco a uma instalação médica civil protegida”. Segundo o hospital, nos últimos meses, a unidade foi repetidamente atacada por homens armados e milícias, razão pela qual a presença da força da polícia civil seria crucial.
O Hamas continua sendo a força dominante nas áreas não controladas por Israel, incluindo a área onde o Hospital Nasser está localizado. Apesar disso, outros grupos armados cresceram em Gaza em decorrência da guerra, inclusive grupos apoiados pelo Exército israelense. Ao longo da guerra, iniciada após o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, as forças do Estado judeu realizaram repetidos bombardeios a hospitais, incluindo o Nasser, acusando o grupo palestino de operar dentro ou nas proximidades dessas unidades.
Agentes de segurança do Hamas também foram frequentemente vistos dentro de hospitais, bloqueando acessos a determinadas áreas. Alguns reféns libertados de Gaza afirmaram ter passado parte do período de cativeiro em um hospital, inclusive no Hospital Nasser. O local, que serviu como ponto de recepção de prisioneiros palestinos libertados por Israel em troca de reféns durante o cessar-fogo, atende centenas de pacientes e feridos de guerra diariamente. (Com AFP)