Meu Jogo: 'Foram os minutos mais longos da minha vida', recorda Gregore, ex-Botafogo, em relato inédito sobre final da Libertadores
Na semana do jogo contra o São Paulo, pelas quartas de final, já se falava muito de que o campeão da Libertadores sairia desse confronto. Fizemos dois jogos muito intensos. No Morumbis, a gente faz 1 a 0 e eles empatam. Eles estavam melhores em um momento, mas conseguimos segurar e foi para os pênaltis. Quando a gente passa, a nossa confiança pelo título sobe muito.
Acho que essa construção do pensamento de ser campeão foi jogo a jogo. Na altura que a gente ia passando de fase, a confiança ia aumentando. Mas na semana da final, não parecia que disputaríamos uma decisão. O sentimento é único, mas a gente estava muito focado nos próximos jogos.
Jogamos contra o Palmeiras no Allianz Parque, um jogo fundamental para o ano, na sequência viajamos para Argentina para final e depois já tínhamos uma decisão do Brasileirão contra o Internacional. Então cada jogo era uma decisão. A gente não tinha muito tempo para pensar “Pô, vamos jogar a final da Libertadores”.
Na véspera da final contra o Atlético-MG, fizemos o reconhecimento do gramado. Aproveitei o momento para fazer minhas orações, e um filme passou pela minha cabeça. Lembrei de tudo o que havia vivido na carreira até chegar ali. Imaginei o dia seguinte, com o estádio lotado, e mentalizei desarmes, movimentos...
No dia do jogo, acordei, tomei café e passei na fisioterapia para bater um papo descontraído com os meninos. Fomos para o estádio, fiz meu ritual de pré-jogo — mobilidade, alongamento e ativação — antes de entrar para o aquecimento. Pedi proteção para mim e para os meus companheiros e fui para o gramado, como em todos os jogos de 2024.
Quando entro em campo, tento ser o mais profissional possível. Há sentimentos que, às vezes, tentamos controlar, mas sempre entro focado em fazer o trabalho, ajudar meus companheiros. Na final, não foi diferente.
“Vixe, F***eu!”
A expulsão acontece muito rapidamente. É uma bola que eles chutam, o Barboza rebate, e ela fica alcançável para mim. Quando viro para a segunda bola, escorrego, e o Almada já está tentando desestabilizar o Fausto Vera, que vem caindo. Eu fui para dar um biquinho na bola, mas cheguei atrasado por causa do escorregão e acabei dando a solada.
Gregore foi expulso aos 29 segundos na final da Libertadores de 2024
Reprodução/TV Globo
Quando vi que acertei, fiquei muito preocupado. O árbitro estava perto e deu só cartão amarelo, mas, ao ver o sangue na cabeça do Fausto, sabia que a cor do cartão iria mudar. O juiz demorou muito a reiniciar a partida, ficou ouvindo o microfone. Pensei: “vixe, fodeu!”.
Naquele jogo, o vermelho teve um peso diferente, porque havia muita coisa envolvida. Era a partida mais importante da história do clube, e eu tinha ciência disso. Foi um dos dias mais difíceis da minha vida. Mas que me fez mais forte. Depois daquele momento, evoluí como pessoa e vi o tanto que sou capaz de suportar.
Botafogo: Gregore é expulso no início do 1º tempo
JUAN MABROMATA / AFP
Na hora, fiquei triste, porque queria participar daquele momento. Quando recebi o cartão vermelho, ouvi o Marlon Freitas conversando com os meninos. Na saída de campo, Alex Telles falou comigo, e Marçal me deu um abraço meio de conforto e meio do tipo “que merda que você fez”.
Por causa do regulamento, fui para o doping depois da expulsão. Fiquei uns 20 minutos lamentando, enquanto o cara do doping tentava me acalmar. Depois de um tempo, sentei e comecei a assistir ao jogo da televisão de lá. Ali foi fé total, orando pelos meus companheiros. Só os representantes da Conmebol podiam entrar na sala. Mas o segurança do Botafogo foi até lá para me tranquilizar e dizer que minha família, que foi ao estádio, estava bem.
Soube que havia saído o primeiro gol por causa do barulho da torcida, mas fiquei perdido sem saber de quem era. Quando a TV mostrou o lance do Luiz Henrique, extravasei: chutei as garrafas de água, joguei a cadeira no chão...
Foram os 75 minutos mais longos e tensos da minha vida, porque não tinha o que fazer. Por ter sido expulso, a responsabilidade estava nas minhas costas. Futebol tem dessas. Se você está disposto a lutar por grandes sonhos, também está sujeito a grandes erros.
Churrasco por conta
Quando me liberaram da sala do doping, fui para a entrada do túnel que dá acesso ao campo. Comecei a vivenciar aquele ambiente da final, a atmosfera do jogo. Vi os lances perdidos pelo Vargas e o gol do Júnior Santos.
Só senti alívio quando o juiz apitou o fim do jogo. Entrei em campo depois, mas não consegui comemorar, porque estava meio em choque, assimilando o que aconteceu. Os jogadores vieram me abraçar e desabei na hora, comecei a chorar.
O sentimento foi de alegria. Aquele título de Libertadores coroou o trabalho. Depois do jogo, meus companheiros me deram uma zoada. Até hoje, eles falam da expulsão. Já paguei churrasco para todo mundo. A dívida ficou grande (risos).
Após o título, a gente extravasou. A noite do dia 30 foi uma loucura na festa na Argentina. No dia seguinte, voltamos para o Rio e fomos para o trio elétrico. Ver a rua lotada de botafoguenses vai ficar marcado para sempre na minha história. Só queria curtir aquele momento.
Após a festa, já veio o jogo contra o Internacional no Brasileirão. Ali a gente entrou no automático, foi uma partida muito difícil. Se eu não me engano, demos dois chutes no gol e o Gatito foi o melhor em campo. Eu não estava cansado porque eu não joguei a final (risos), mas estava pelo trio elétrico.
Na sequência, a gente vem para fechar o ano contra o São Paulo e, olha como as coisas são, eu quase não jogo. Numa partida contra o Athletico, na Arena da Baixada, eu caio de mal jeito e machuco as costas. Tinha jogo que eu tinha que fazer manobra para jogar, e nesse contra o São Paulo, joguei o primeiro tempo e pedi para sair no intervalo. Estava com muita dor. O doutor Dutra me deu uma injeção para eu continuar e no finalzinho eu roubo a bola e faço o gol do título.
Gregore faz gol do título brasileiro do Botafogo
Vitor Silva/Botafogo
Na comemoração eu extravaso. Até choro porque só eu sei o que passei naquela semana. Eu viveria o gol do título de novo, mas sem a expulsão. Não precisa passar essas coisas não (risos).
*Ex-jogador do Botafogo expulso no começo da final da Libertadores de 2024 e atualmente no Al-Rayyan-CAT, em depoimento ao repórter Breno Angrisani