Do Brasileirão à extinção: conheça os clubes que chegaram à elite e desapareceram do mapa
Um novo Brasileirão começa nesta quarta-feira. E começa sem estreantes. Há histórias novas, claro, como a volta do Remo à elite depois de 31 anos. Mas ninguém vai pisar pela primeira vez no palco principal. O último a fazer isso foi o Mirassol, ano passado, tornando-se o 161º clube a disputar a elite do futebol brasileiro, considerando todas as fases da competição: do Torneio dos Campeões de 1937 à Taça Brasil, do Robertão ao Brasileirão moderno.
Esse número, porém, esconde outro dado, mais curioso e menos celebrável. Trinta desses 161 clubes simplesmente não existem mais. Desapareceram do mapa. Ou seja, em média, quase um a cada cinco clubes que já chegou à elite do Brasileirão deixou de existir de alguma forma. E O GLOBO mergulhou numa ampla pesquisa histórica para entender quem foram esses clubes, por que chegaram lá e, principalmente, como e por que desapareceram. O resultado é um retrato pouco convencional do futebol brasileiro: menos sobre títulos e glórias, mais sobre projetos interrompidos, apostas mal calculadas, mudanças de época e mortes silenciosas.
Por que morreram
Há formas muito diferentes de desaparecer do futebol brasileiro. Algumas definitivas. Outras, quase burocráticas. Ao menos oito desses 30 clubes foram extintos juridicamente. Encerraram atividades, fecharam sedes, desapareceram do cartório e da memória institucional. O Eletrovapo, de Niterói, é um exemplo clássico. Campeão estadual em 1964 — numa época em que o Campeonato Fluminense reunia os clubes do antigo Estado do Rio, fora do eixo da capital — o clube fundado por funcionários da Companhia Eletrovapo de Serviços Marítimos disputou a Taça Brasil de 1965 e encerrou oficialmente suas atividades em 1977, sufocado por dificuldades financeiras.
O clube fez e terminou sua única participação na elite nacional invicto, sem sofrer derrotas em campo. Caiu fora do torneio não por bola, mas por sorte — eliminado no cara ou coroa após uma sequência de três empates contra a Desportiva-ES. É apontado como o único clube que chegou, jogou e deixou o Brasileirão de forma invicta. E já que não mais existe, nunca mais vai perder. Nem vencer.
Outros clubes morreram para dar origem a algo novo. Em Curitiba, esse tipo de “extinção planejada” foi quase uma política esportiva. O Ferroviário desapareceu ao se fundir com outros clubes históricos e dar origem ao Colorado, que viria a ser, entre os extintos, o clube com mais participações no Brasileirão. Anos depois, o próprio Colorado também foi extinto: desta vez para se unir ao Pinheiros e formar o Paraná Clube. Clubes que morreram, mas o futebol seguiu: outro nome, outra camisa, outro CNPJ.
Há ainda um grupo significativo de clubes que não chegou a morrer, mas desligou o futebol profissional. O Metropol, de Criciúma, talvez seja o caso mais emblemático. Campeão estadual, participante da Taça Brasil e dono de uma excursão internacional pela Europa nos anos 1960, que o levou a ser chamado de "Real Madrid Catarinense". O clube escolheu abandonar o profissionalismo e seguir apenas no amadorismo. Ou o Fonseca, de Niterói, forte hoje como clube social e no futsal. Mas o Galo Carijó, seu apelido e mascote, não canta em um torneio profissional já há mais de seis décadas.
Existem ainda os clubes que entraram em estado de hibernação: não foram oficialmente extintos, mas também não disputam campeonatos profissionais há décadas. Permanecem como entidades jurídicas, nomes em listas antigas, placas enferrujadas em sedes sociais ou páginas esquecidas na internet, Essa tipologia ajuda a entender que a maior parte desses times não desapareceu por um único motivo trágico ou espetacular. Muitos foram simplesmente desligados da tomada quando o futebol deixou de fazer sentido econômica, política ou institucionalmente.
Como sumiram
Ao agrupar as histórias desses clubes, a reportagem encontrou algumas causas recorrentes, quase famílias de desaparecimento, que ajudam a explicar por que tantos projetos chegaram à elite e não resistiram ao passo seguinte. A mais comum é o custo da profissionalização. Clubes de bairro ou do interior que conseguiram chegar à Taça Brasil num momento em que o futebol nacional ainda cabia no orçamento de uma cidade média, mas não suportaram o aumento acelerado das despesas. O problema, nesses casos, raramente foi a chegada à elite. Foi o dia seguinte.
O Estrela do Mar, de João Pessoa, ilustra bem esse padrão. Fundado em 1953, o clube foi campeão paraibano em 1959 e disputou a Taça Brasil de 1960. Aquela participação nacional, porém, coincidiu com o último suspiro competitivo do time. No mesmo ano em que chegou ao topo, deixou a primeira divisão estadual. Não houve uma queda brusca, nem um episódio traumático. O clube simplesmente não conseguiu sustentar a nova escala de viagens, elenco e estrutura exigida pelo futebol profissional. O auge virou ponto final.
O Santa Cruz de Estância, em Sergipe, também parece escrito como parábola. Pentacampeão estadual entre 1956 e 1960 e pioneiro sergipano nas competições nacionais do período, o clube entrou em declínio justamente com a implantação do futebol profissional no estado. Jogadores saíram, o elenco envelheceu, o padrão caiu. O tamanho do Brasil foi grande demais para um clube de uma pequena cidade do menor estado da federação.
Outro grupo numeroso é o dos clubes que nasceram, viveram e morreram conforme a saúde (ou a paciência) de um único patrono. Quando o projeto econômico acabou, o time acabou junto, sem drama nem romantização. O exemplo mais emblemático é o Perdigão, de Videira-SC. Criado e sustentado por uma gigante do ramo alimentício, o clube carregava no nome a própria fonte de financiamento. Representou, por um breve período, a ideia de clube-empresa antes mesmo de o termo virar moda. Quando o futebol deixou de fazer sentido dentro da estratégia empresarial, foi simplesmente descontinuado. Essa lógica ajuda a entender também um desaparecimento bem mais recente: o do J. Malucelli. O clube chegou à elite em 2000, pela intrincada Copa João Havelange, virou Corinthians Paranaense em uma parceria improvável, voltou ao nome original e, anos depois, encerrou o futebol profissional por decisão do dono. Não houve falência ou trauma. Apenas a constatação fria de que o projeto não compensava mais. E o futebol foi desligado como quem fecha uma filial.
Há também os clubes cuja existência dependia menos da bola e mais do ambiente político-institucional ao redor. Eram fortes enquanto havia contexto, apoio e utilidade. O Guanabara, de Brasília, é quase uma metáfora pronta: nasceu literalmente como Clube Esportivo Câmara dos Deputados, reunindo servidores transferidos para a nova capital e surfando um momento em que Brasília ainda aprendia a existir — inclusive no futebol. Chegou à elite quando a cidade ainda se organizava como centro administrativo do país. Quando o cenário mudou, o clube perdeu função, fôlego e razão de ser. A mesma lógica ajuda a explicar o caçula dos extintos: o Grêmio Barueri, que chegou à Série A em 2009 e 2010 embalado por forte apoio do poder público local. Depois vieram disputas políticas, mudança de sede, quedas consecutivas, anos de inatividade e, em 2025, a desfiliação oficial. Histórias separadas por décadas, mas unidas pelo mesmo roteiro: quando a sustentação política acaba, o futebol também perde o chão.
Quando disputaram
Um olhar temporal, que mostra quando esses clubes disputaram a elite, ajuda a entender por que tantos chegaram, e por que quase nenhum ficou. Na prática, essas histórias atravessam três Brasileirões diferentes, separados menos por nome e mais por lógica.
O primeiro deles é o de 1937, num futebol ainda tão amador que o próprio Estado entrava em campo. A Liga da Marinha, um dos seis participantes, não era um apelido: tratava-se literalmente de uma equipe ligada à força naval brasileira, formada por militares que competiam em igualdade com clubes civis. Em um futebol ainda em organização, instituições entravam em campo com naturalidade.
A grande concentração de clubes extintos, porém, aparece no período pré-1971, durante a Taça Brasil e o Robertão. Vinte e dois dos 30 clubes extintos disputaram a elite nesse intervalo. Não por acaso. O formato facilitava o acesso: bastava ser campeão estadual para entrar no torneio nacional, as campanhas eram curtas e a logística, mais simples. Era um Brasileirão mais aberto e, justamente por isso, mais instável. Já no Brasileirão pós-1971, mais longo, caro e profissionalizado, o cenário muda radicalmente: quanto mais o torneio se consolidou como produto, menos permissivo ele se tornou para aventuras de curto prazo. Nos primeiros tempos, o campeonato era uma porta giratória. Com o passar das décadas, virou um funil.
De onde são
A geografia também pode ser responsável pelo fim de um clube de futebol. Depois de mais de duas décadas adormecido, o Olímpico, representante amazonense na Taça Brasil de 1968, ensaiou um retorno em 2007, inscrito na segunda divisão do Estadual. A volta era discreta, mas carregava simbolismo. O problema é que, por ali, o futebol ainda depende do mapa. Na viagem de barco até Manicoré, onde enfrentaria o CDC, o clube encontrou um adversário invencível: uma tempestade com ventania forte o suficiente para encerrar a excursão antes do apito inicial. O jogo não aconteceu, o W.O. veio, e o Olímpico tentou recorrer com o argumento mais literal possível: um “caso fortuito com força da natureza”. A Federação Amazonense de Futebol não se comoveu. Tratou a viagem como inexistente, manteve o W.O. e aplicou uma suspensão de dois anos. O futebol perdeu para a floresta, e o Olímpico nunca mais voltou a campo.
Entre os 30 clubes extintos que já disputaram a elite do futebol brasileiro, três estados lideram com folga: Paraná, com suas fusões de equipes, Distrito Federal e Rio de Janeiro: são seis clubes de cada. No Rio, o desaparecimento tem outra lógica: durante décadas, o Campeonato Fluminense funcionou como uma elite própria, reunindo os clubes do antigo Estado do Rio, fora da capital. Times que foram campeões estaduais, disputaram competições nacionais e sustentaram projetos sólidos dentro daquele recorte. A fusão entre os estados da Guanabara e do Rio, em 1975, mudou radicalmente o cenário. A partir dali, esses clubes passaram a dividir espaço com Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo. O problema não foi um erro específico. Foi estrutural. O ambiente deixou de permitir a sobrevivência.
Já a capital talvez concentre a história mais simbólica. Brasília tentou organizar o futebol ao mesmo tempo em que organizava a própria cidade. Clubes surgiram rapidamente, quase sempre ligados a órgãos públicos, universidades, construtoras ou repartições. A capital do país se consolidou. O futebol, não. Poucos exemplos fecham essa narrativa com tanta clareza quanto o Rabello. O clube levava o nome e era patrocinado pela construtora responsável por algumas das obras mais emblemáticas da nova capital — o Palácio da Alvorada, o Supremo Tribunal Federal, a rodoviária do Plano Piloto, os prédios centrais da Esplanada dos Ministérios. Em campo, foi tetracampeão brasiliense e disputou competições nacionais. Fora dele, simbolizava a crença de que Brasília também poderia erguer um futebol forte do zero.
A empresa ajudou a construir a cidade. O clube não conseguiu sobreviver a ela. Histórias da capital do Brasil, histórias desse imenso Brasileirão que recomeça quarta. Com cada um dos 20 clubes veteranos querendo, definitivamente, sair vivo da competição.