Visita aos EUA, tarifaço, Venezuela, Conselho da Paz e crime organizado: os 5 pontos do telefonema entre Lula e Trump
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou nesta segunda-feira, por telefone, com o líder americano Donald Trump por cerca de 50 minutos. A ligação ocorre em meio às negociações para ampliar as isenções de setores brasileiros ao tarifaço e à proposta americana para que o Brasil integra o controverso Conselho da Paz, iniciativa dos Estados Unidos que reuniria líderes para mediar uma solução para o conflito em Gaza.
Os dois líderes tocaram em ao menos cinco pontos importantes da agenda bilateral, de acordo com comunicado do Palácio do Planalto.
1.Visita de Lula a Washington
Ambos alinharam uma visita oficial de Lula aos Estados Unidos em fevereiro, a ser realizada depois da viagem do brasileiro à Índia e à Coreia do Sul. A data definitiva ainda não foi divulgada.
Seria o terceiro encontro pessoal entre os dois presidentes desde que Trump assumiu seu segundo mandato, e o segundo em solo americano. Os dois tiveram um breve encontro, de aproximadamente um minuto, nos bastidores da Assembleia Geral da ONU em setembro, logo após o discurso de Lula e imediatamente antes da fala de Trump no evento.
Em novembro de 2025, a pedido do governo do Brasil, Trump voltou a se encontrar com Lula, dessa vez na Malásia, onde os dois participaram como convidados da 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), bloco que reúne economias do Sudeste Asiático.
2. Conselho da Paz e a posição crítica do Brasil
Na conversa, Lula comentou o convite para a participação do Brasil no que os EUA denominaram Conselho da Paz e “propôs que o órgão apresentado pelos Estados Unidos se limite à questão de Gaza e preveja assento para a Palestina”, segundo o comunicado oficial.
Ainda assim, Lula reforçou na conversa a importância de uma reforma da ONU e do Conselho de Segurança, demandas históricas da diplomacia brasileira. O Conselho da Paz é considerado controverso por ser uma entidade paralela e independente em relação à ONU e que, de certa forma, esvaziaria a organização multilateral em um de seus momentos mais críticos. A proposta é capitaneada por Trump, um crítico contumaz da ONU e do multilateralismo.
Segundo o comunicado do Planalto, Lula “reiterou a importância de uma reforma abrangente das Organização das Nações Unidas, que inclua a ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança”.
Na semana passada, durante um discurso a militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), Lula chegou a criticar a iniciativa de Trump.
— Vocês estão acompanhando e percebendo que nós estamos vivendo um momento muito crítico na política mundial. O multilateralismo está sendo jogado fora pelo unilateralismo. Está prevalecendo a lei do mais forte. A carta da ONU está sendo rasgada. E ao invés de a gente corrigir a ONU, que a gente reivindica desde que eu fui presidente (pela primeira vez) em 2003, reforma da ONU com a entrada de novos países (no Conselho de Segurança), com a entrada de México, do Brasil, de países africanos, o que está acontecendo? O presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU e que ele sozinho é o dono da ONU — disse Lula.
O presidente brasilei também afirmou, na ocasição, que tem conversado com líderes de outros países na tentativa de fortalecer o multilateralismo. Antes de conversar com Trump, nas últimas três semanas, Lula falou com chefes de Estado ou de Governo de China, Rússia, Índia, Turquia, Panamá, Portugal, Espanha, México, Canadá e Colômbia.
Lula tem sido explícito em reafirmar a necessidade de que qualquer participação seja coerente com os princípios de inclusão e de respeito ao direito internacional e à solução de dois estados para o conflito israelo-palestino.
3. Venezuela e estabilidade regional
Os dois líderes também conversaram a respeito da situação política da Venezuela após a derrocada do ex-ditador Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos, em 3 de janeiro. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, assumiu a presidência com o apoio dos Estados Unidos, apesar de publicamente manter uma retórica crítica à intervenção militar.
Embora tenha recebido menos destaque na narrativa oficial sobre o telefonema, o comunicado do Planalto confirma que ambos “trocaram impressões sobre a situação na Venezuela”. Lula é um crítico de primeira hora da intervenção militar americana na Venezuela. O presidente brasileiro condenou, em diversas ocasiões, a ação que resultou na captura de Maduro.
Apesar de já ter sido próximo do chavismo e do madurismo, Lula marcou distância de Nicolás Maduro nos últimos anos. Um dos sinais mais evidentes disso foi o não reconhecimento, por parte do Brasil, da vitória do líder venezuelano nas eleições presidenciais de 2024 no país.
No comunicado sobre a ligação entre Trump e Lula, o presidente brasileiro teria ressaltado a necessidade de “preservar a paz e a estabilidade da região e de trabalhar pelo bem-estar do povo venezuelano”.
Na semana passada, Lula afirmou estar “indignado com o que aconteceu na Venezuela”, em referência à intervenção militar no país caribenho. Maduro e a esposa, a deputada Cilia Flores, estão presos em Nova York, onde respondem à Justiça americana por suposto envolvimento com o narcotráfico.
— Sinceramente, eu fico toda noite indignado com o que aconteceu na Venezuela. Eu não consigo acreditar. O Maduro sabia que tinha 15 mil soldados americanos no Mar do Caribe. Ele sabia que todo dia tinha uma ameaça. Ou seja, os caras entram à noite na Venezuela, vão num forte, que é um quartel, onde morava o Maduro, e levam o Maduro embora. E ninguém soube que o Maduro foi embora. Como é possível a falta de respeito à integridade territorial de um país? Não existe isso na América do Sul. Aqui é um território de paz — disse Lula durante discurso a militantes do MST em Salvador.
4. Tarifaço e relação comercial
No diálogo entre Lula e Trump, o presidente brasileiro voltou a falar sobre o tarifaço de 50% sobre exportações brasileiras imposto desde agosto pelo governo americano. Embora posteriormente Trump tenha ampliado a lista de exceções à tarifa, a sobretaxa ainda castiga grandes exportadores brasileiros, sobretudo nos setores industriais, como os de máquinas e equipamentos, calçados, madeira e pescados. O Brasil tem pleiteado uma trégua temporária do tarifaço enquanto negocia um acordo comercial com os americanos, mas a proposta até o momento não foi aceita.
“Ambos saudaram o bom relacionamento construído nos últimos meses, que resultou no levantamento de parte significativa das tarifas aplicadas a produtos brasileiros”, diz o comunicado do Planalto.
“Os presidentes trocaram informações sobre indicadores econômicos dos dois países, que apontam boas perspectivas para as duas economias. O presidente Trump afirmou que o crescimento econômico dos Estados Unidos e do Brasil é positivo para a região como um todo”, diz a nota oficial.
A balança comercial permanece marcada por assimetrias: os EUA mantêm um superávit considerável. Em 2025, os americanos exportaram US$ 7,5 bilhões a mais do que importaram do Brasil, de acordo com dados oficiais.
5. Cooperação contra o crime
Outro tema da conversa foi a segurança, mais especificamente o combate ao crime organizado. Conforme comunicado oficial, Lula “reiterou proposta, encaminhada ao Departamento de Estado em dezembro, de fortalecimento da cooperação no combate ao crime organizado”, com foco em lavagem de dinheiro, tráfico de armas e intercâmbio de dados financeiros. A ideia, segundo a nota, foi “bem recebida pelo presidente norte-americano”.
A cooperação anticrime tem sido um tema sensível da agenda bilateral Brasil-EUA. Enquanto os americanos ampliam designações de grupos transnacionais e cartéis como organizações terroristas, o Brasil é contrário a classificar facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como terroristas. A objeção decorre, em grande medida, da preocupação de que esse enquadramento abra margem à aplicação de sanções americanas ou restrições financeiras a atores brasileiros.