Inteligência informa Trump sobre enfraquecimento de regime do Irã em meio a reforço militar americano no Oriente Médio
O presidente Donald Trump recebeu diversos relatórios de inteligência dos Estados Unidos indicando que a posição do governo do Irã está se enfraquecendo, segundo várias pessoas familiarizadas com o conteúdo das análises. De acordo com esses documentos, o controle do regime sobre o poder atingiu seu ponto mais frágil desde a derrubada do xá, na Revolução Islâmica de 1979, um marco histórico que redefiniu a estrutura política do país.
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Os relatórios apontam que os protestos que eclodiram em dezembro tiveram impacto significativo sobre setores do governo iraniano. As manifestações ganharam relevância especial por terem alcançado regiões que autoridades consideravam redutos tradicionais de apoio ao aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã. Embora tenham perdido intensidade, o governo segue em uma posição delicada. As avaliações de inteligência ressaltam que, além da instabilidade social, a economia iraniana atravessa um dos períodos mais frágeis de sua história recente.
As dificuldades econômicas desencadearam protestos esporádicos no fim do último ano. À medida que as manifestações se espalharam em janeiro, o governo iraniano se viu com poucas alternativas para aliviar a pressão financeira sobre as famílias. As autoridades recorreram, então, a uma repressão severa, medida que ampliou o distanciamento entre o regime e setores da população. ONGs de direitos humanos alertaram que a repressão deixou milhares de mortos, e Washington não descartou uma intervenção militar no país, ainda que tenha enviado sinais contraditórios sobre a possibilidade de uma ação desse tipo.
Paralelamente, os Estados Unidos vêm reforçando sua presença militar na região, embora ainda não esteja claro quais ações o governo Trump considera adotar a partir desse movimento. Em nota, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que o presidente é mantido informado sobre questões de inteligência em todo o mundo: “Seria uma negligência de dever, como comandante em chefe, se ele não fosse regularmente atualizado sobre esses assuntos. Em relação ao Irã, o presidente Trump continua monitorando a situação de perto”, escreveu.
Trump chegou a advertir que poderia ordenar ataques contra o Irã à medida que a repressão aos protestos se intensificava. Ainda assim, seus assessores se dividiram quanto à utilidade dessas ações, especialmente se elas se limitassem a ataques simbólicos contra integrantes do governo. Posteriormente, o presidente pareceu recuar de qualquer ação militar imediata em apoio aos manifestantes depois que o governo iraniano cancelou a execução planejada de um manifestante. Segundo um alto funcionário americano, o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, também pediu a Trump que adiasse um eventual ataque ao Irã.
Apesar disso, uma campanha militar mais ampla é vista com interesse por alguns dos assessores e aliados mais belicosos de Trump, que enxergam no atual contexto uma oportunidade para forçar a saída da liderança iraniana. O presidente continua a manter a ameaça do uso da força e chegou a descrever o reforço naval americano na região como uma “armada”. Trump também tem feito comentários públicos sobre o programa nuclear iraniano, emitindo advertências e lembrando o governo do país dos ataques que ordenou no ano passado contra seus centros de pesquisa mais fortemente protegidos.
O senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, afirmou que conversou com Trump nos últimos dias sobre a situação no Irã e disse esperar que o presidente cumpra a promessa de apoiar os iranianos que protestaram contra o regime. Em breve entrevista ao New York Times, Graham disse que “o objetivo é acabar com o regime”.
Investida militar
Na segunda, o porta-aviões Abraham Lincoln, acompanhado por três navios de guerra equipados com mísseis Tomahawk, entrou na área de responsabilidade do Comando Central dos EUA, no oeste do Oceano Índico. A informação foi confirmada por um funcionário americano que falou sob anonimato. Segundo autoridades militares, caso a Casa Branca ordene um ataque ao Irã, o porta-aviões poderia, em teoria, entrar em ação em um prazo de um ou dois dias.
— Temos uma grande armada ao lado do Irã. Maior do que a da Venezuela — declarou Trump ao site de notícias Axios, semanas após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma intervenção militar dos Estados Unidos, sem oferecer detalhes. — Eles querem chegar a um acordo. Eu sei disso. Ligaram várias vezes. Querem conversar.
Teerã afirmou anteriormente que existe um canal de comunicação aberto entre o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abás Araqchi, e o enviado americano Steve Witkoff. No entanto, o jornal conservador Hamshahri citou nesta terça-feira o porta-voz da Guarda Revolucionária, Mohammad Ali Naini, que afirmou que “se o porta-aviões cometer um erro e entrar em águas territoriais iranianas, será atacado”. O também conservador Javan afirmou que o Irã estava “pronto para uma resposta contundente” e que poderia assumir o controle do estratégico Estreito de Ormuz, um ponto-chave para o trânsito do fornecimento global de energia.
Os Estados Unidos também enviaram uma dúzia adicional de caças de ataque F-15E para a região, com o objetivo de reforçar a capacidade ofensiva aérea. O Pentágono deslocou ainda mais sistemas de defesa aérea Patriot e THAAD para proteger tropas americanas contra possíveis ataques de retaliação com mísseis iranianos de curto e médio alcance. Bombardeiros de longo alcance baseados nos Estados Unidos, capazes de atingir alvos em território iraniano, permanecem em estado de alerta acima do normal. O nível foi elevado há duas semanas, quando Trump solicitou opções militares em resposta à repressão aos protestos no país.
Nos últimos dias, o Pentágono também intensificou consultas com aliados regionais. O almirante Brad Cooper, chefe do Comando Central, visitou Síria, Iraque e Israel no fim de semana para se reunir com militares americanos e autoridades locais. Segundo uma fonte militar, o objetivo da viagem foi visitar tropas e centros de detenção no nordeste da Síria. Na semana passada, os militares americanos começaram a transferir prisioneiros do Estado Islâmico da região para o Iraque, diante do receio de que milhares de ex-combatentes e seus familiares possam escapar à medida que o governo sírio retoma o controle de áreas antes dominadas por forças curdas.
Autoridades americanas também transmitiram um recado ao governo iraquiano: caso haja uma escalada de tensão com o Irã e milícias xiitas no Iraque ataquem bases ou tropas dos Estados Unidos, haverá retaliação. Além disso, representantes do governo Trump mantêm consultas com outros parceiros regionais. Segundo um funcionário americano, além de conversas com autoridades israelenses e reuniões em Bagdá, houve diálogos recentes com representantes da Arábia Saudita e do Catar sobre a situação iraniana.
Cenário iraniano
Grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que o bloqueio da internet, imposto pelas autoridades do Irã há quase três semanas, dificulta a contagem de mortos. Segundo essas organizações não governamentais, o corte na rede busca ocultar a dimensão da repressão. A ONG Human Rights Activists News Agency (HRANA), com sede nos Estados Unidos, informou ter confirmado a morte de 6.126 pessoas e estar investigando outros 17.091 possíveis óbitos. A entidade também afirmou que pelo menos 41.880 pessoas foram detidas.
Ativistas acusaram as autoridades de invadir hospitais para localizar manifestantes feridos e, em seguida, prendê-los. O Ministério da Saúde afirmou que todas as pessoas devem procurar atendimento hospitalar sem receio e não se tratar em casa. A emissora de televisão em língua persa Iran International, sediada no exterior, afirmou no fim de semana que mais de 36.500 iranianos foram mortos pelas forças de segurança entre os dias 8 e 9 de janeiro, citando relatórios, documentos e fontes. A informação não pôde ser verificada de forma independente.
(Com AFP)